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quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Eu apoio esta causa...


Logo já vou buscar o meu, bem como umas peças de Merchandising para ajudar a Associação Filhos do Coração!
Porque admiro muito a Jornalista Alexandra Borges que apoiou esta causa inteiramente do seu bolso para salvar estas crianças. Agora cabe a cada um de nós denunciar isto. Meninos que são vendidos por 20€ para trabalhar durante 14 horas por dia num lago. E quando adoecem são deitados ao Lago e servem de alimento aos crocodilos!
Podem consultar o site da Associação Filhos do Coração, AQUI

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Aquele Estranho... Parte V

O dia passou sem sobressaltos de maior. Eu bem estava a precisar de um dia calmo, depois de todas as emoções que tive no dia anterior. Estava a 2 dias do maravilhoso fim-de-semana e as borboletas não paravam de esvoaçar dentro da minha barriga. Nada como um sentimento forte para perdermos umas gramas. Prometi cuidar mais de mim e nesse dia não ficaria na empresa nem mais um minuto depois da hora. Apetecia-me caminhar pela minha marginal, só eu e a música. Os pensamentos e o Rio. O meu confidente de pensamentos, sonhos e angústias. Para não falar dos medos e das inseguranças. Quando caminhava esvaziava a alma das coisas que não interessavam. Era como um libertar de tudo aquilo que estava a mais. Chegava a casa e o pouco que podia ainda restar ia pelo ralo junto com a água do banho. Cansava o corpo e descansava o espírito. Depois de tudo aquilo, sentia-me leve leve. Adorava os dias que terminavam cedo e ainda conseguia fazer as minhas coisas. O Verão ajudava muito nisso, as tardes prolongavam-se pela noite dentro. E era bom. Da minha janela da sala via o sol pôr-se já quase pelas 9 da noite… um laranja profundo que iluminava toda a casa. Quando estava prestes a sentar-me no sofá para ler um pouco, liga-me a Isabel.
 - Olá… Então? Como tens passado? Já não falamos há algum tempo. O que tens feito?
 - Olá minha querida Isabelinha. Olha, a mesma correria de sempre. Mas hoje saí do trabalho mesmo na hora e vim para caminhar um bocado. Acabei de me sentar. E tu? Como está o Manel e a tua menina mais linda?
 - Está tudo bem connosco. Estávamos a pensar ir passar o fim-de-semana a qualquer lado e lembrei-me de te dizer se querias ir connosco. A Inês tem perguntado muito por ti e achei que era bom.
 - Oh era excelente essa ideia e eu aceitava sem problemas nenhuns. Só que este próximo eu já tenho coisas combinadas…. (suspiro)
 - O que me estás a esconder? Já te conheço tão bem… Não me digas que anda índio no ar?
 - (risos) nem sei o que dizer. Não sei nada. Sei apenas que vou para Évora. O resto posso contar e explicar quando voltar. Pode ser?
 - Eu bem sabia. Desculpa, não leves a mal estar a rir. Mas é um riso bom. Com alegria e muita felicidade. Aproveita, mas depois já sabes, quero saber tudo. E não te livras de mo apresentar depois, quero dar o meu parecer…
 - Claro que sim. Nem eu deixava que as coisas avançassem sem o teu aval. A tua opinião é das mais importantes para mim. Só te posso dizer que eu queria muito isto, vamos ver se está ao meu alcance. Se se concretiza pela positiva. Espero mesmo que sim amiga. Já passei muito sozinha e acho que chegou a hora de as coisas entrarem numa rota diferente.
 - Sem dúvida. Se ele estiver disposto a perder algum tempo para te conhecer de verdade, vais ver que resulta. Tu és uma óptima pessoa. Eu acredito que sim. E quem é o Índio? (risos)
 - Não vou dizer nada por enquanto. Mas tu vais ficar a saber assim que eu voltar. Prometo-te. Peço-te apenas que torças por mim. Que queiras, tanto ou mais que eu que corra bem.
 - Vai correr lindamente. Tu és muito gira, amiga e eu sei que ele vai-te adorar. Espero que gostes dele assim também. Agora tenho de desligar, a Inês está quase a ir para a caminha. Ainda não parei. Depois vens cá jantar a casa para me contares tudo.
 - Convite aceite. Depois ligo-te. Um beijo muito grande.
 - Outro para ti. Até logo amiga. Pensa positivo e deixa correr.
...

terça-feira, 26 de abril de 2011

Aquele Estranho... Parte IV

...
Estacionei à porta de casa. Por milagre estava um lugar à minha espera. Vim acompanhada de um sorriso parvo. Só pensava nele. Aquele cheiro delicioso que é tão dele, aquela espontaneidade tão característica. E as saudades que eu tinha de sentir esta magia. Queria muito esta oportunidade. Só queria fazer as coisas bem-feitas, pelo menos enquanto durasse que fosse bom.
Chegada a casa não me apeteceu estar a ligar-lhe. Escrevi-lhe uma mensagem apenas a dizer que tinha chegado bem e que ia dormir. Agradeci-lhe também o facto de ter aceite partilhar o crepe comigo, assim não me pesava tanto a consciência por ter ingerido tanto doce sozinha.
Ele respondeu-me dizendo simplesmente que foi um prazer. Que poderíamos partilhar mais coisas daqui para a frente, se fosse essa a minha vontade. Despediu-se com um até amanhã…
Andei às voltas na cama sem ter a mínima vontade de dormir. Tentei por tudo não pensar, mas era inevitável. Tinha sido surreal. Peguei num livro e comecei a ler para ver se o sono descia sobre mim. De manhã ia custar-me horrores levantar, mas não queria saber. Ao fim de umas três páginas o João Pestana foi chegando de mansinho. Tirei os óculos, coloquei o livro para o lado, desliguei a luz e adormeci.
O despertador tocou pelas 6.30h. Abri os olhos de repente. Achei que tinha sido um sonho. Que a noite anterior tinha sido invenção da minha mente. Entrei no duche e quando saí vi que tinha uma mensagem no telefone.
Bom dia. Deixo-te o meu beijo e o desejo que tenhas um dia muito feliz. Hoje vou estar fora de Lisboa o dia todo, mas quero que saibas que te levo comigo nos meus pensamentos. Até logo.
Sorri. Agarrei o telefone e ri-me. Não tinha sonhado afinal de contas. Ele não se tinha esquecido de mim. Respondi-lhe dizendo que tinha gostado muito da sua companhia e que tipo de roupa era necessário para o fim-de-semana.
Tudo simples. Ficas bem com qualquer coisa. Apenas para o jantar é necessário algo mais formal, mas nada de especial. Já estou com saudades.
Despedi-me com um simples: tem um bom dia e continuei a despachar-me para ir trabalhar. Dancei em frente ao espelho, como se ele estivesse ali e me acompanhasse em cada movimento. Aquele sorriso encantador não me saía da cabeça. Vesti-me, tomei o pequeno-almoço e saí para o trabalho.
No caminho ligou-me a Rita, à espera das últimas novidades. Até tinha medo de falar no que quer que fosse. Não fosse haver algo e tudo mudaria de um momento para o outro. Mas com a Rita era diferente, não lho podia esconder. Apenas lhe disse que íamos de fim-de-semana, depois quando eu voltasse aí sim iríamos encontrar-nos e falar com mais calma. Senti-a aos pulos do outro lado da linha.
A Rita tinha sido das poucas amigas que ficaram na minha vida. Que o tempo não levou. Fomos sempre unidas. Estávamos separadas por duas centenas de Quilómetros mas nem isso fez com que as circunstâncias da vida nos separassem e admirava-a muito por ser uma miúda do campo, mas com uma garra imensa para o trabalho e para a vida.
E por falar de amigas não podia jamais esquecer-me da Isabel. No fundo contava apenas e só com estes dois seres, ou melhor três, não podia esquecer o meu querido Artur, claro. Os meus três grandes amigos. Mas quantidade nunca foi sinónimo de qualidade, logo não me importava minimamente com isso. Quantas pessoas estavam rodeadas de amigos e nos momentos em que mais precisavam estavam sós? Ou quantos não se sentiam sozinhos no meio de multidões? Eu tinha poucos, mas bons e daqueles verdadeiros como há tão poucos por aí.

domingo, 3 de abril de 2011

Aquele Estranho... Parte III

A corrida tinha de ficar para o dia seguinte, bem como os estudos. Fiz os bifes o melhor que pude, cozi uma massa esparguete e fiz um sumo de laranja natural. Jantei, lavei a loiça, vesti umas calças de ganga e saí. Os nervos apoderaram-se de mim. Conduzi tentando focar-me na estrada. Umas gotas de chuva começaram a cair. Não acreditava que estava a ir para um encontro. Chegar até àquela pessoa era algo que estava muito acima daquilo que eu considerava expectável. Tentei afastar todos aqueles pensamentos, coloquei uma música feliz. Cantei e sorri e substituí tudo o que abundava na minha cabeça apenas por uma coisa. Eu mereço isto. Se ele me procurou é porque eu sou especial, porque sou mesmo. Logo, isto é possível. E eu estou feliz. Vai ser um sucesso.
Estacionei no subterrâneo, subi as várias escadas rolantes e quando chego a meio do último lance, avisto-o. Ele não me vê. Caminho devagar até à mesa que escolheu.
 - Olá! Estás à minha espera há muito tempo? – Questionei…
 Ele olhou-me com os olhos bem abertos. Eu confesso que fiquei um pouco assustada. O facto de ele nada dizer naqueles segundos que se seguiram estava a incomodar-me. Levantou-se, cumprimentou-me e puxou uma cadeira para eu me sentar.
 - Estou muito melhor agora. Não gosto muito de estar sozinho em locais com muita gente. Faz-me sentir pequeno. Ainda bem que já chegaste.
 - Mas eu não me atrasei – respondi. – Tu é que se calhar chegaste cedo…
 - Sim, cheguei um pouco mais cedo. Ainda pensei que pudesses não vir, e isso preocupava-me.
 - Porquê? Não tenho esse hábito. Se não viesse dizia-to simplesmente. Olha, não vou. Não me apetece ou não quero. Sei que não me conheces bem, mas sou sempre muito honesta. Há quem não goste deste meu lado honesto, que às vezes pode ser cruel e doloroso. Sabes que nem toda a gente está preparado para lidar com a verdade. Preferem ouvir as coisas de forma camuflada. Meio abafadas para não doer tanto. Mas eu não sei ser de outro modo, simplesmente não sei. É mesmo o meu feitio, ser transparente e honesta.
 - Mas isso é bom, no meu entender. Pode custar e doer, mas é a realidade. É a verdade e não uma mentira mascarada. Falando de outras coisas, vens comigo a Évora? Vai ser giro. Eu sei que gostas muito de fotografia, podes aproveitar para fazer um gosto ao dedo. Eu conheço uns lugares que te quero mostrar. E tu vais adorar.
 - Mais um ponto fraco. Tu realmente andaste mesmo à procura de tudo aquilo a que eu não conseguia resistir. Fizeste muito bem o trabalho de casa. Ainda estou para saber como conseguiste dar a volta ao meu irmão para ele te dizer todas essas coisas a meu respeito…
 - Não foi preciso nada de especial. Apenas tive de lhe garantir que vinha por bem, Isso foi suficiente. Sabes uma coisa? Ele estima-te muito. Preocupa-se. Achei de um carinho surpreendente. Olha, queres tomar café?
 - Não. Mas quero comer um crepe. Podias comer um comigo, porque é grande. Pode ser?
 - Dividir um crepe contigo? Não achas que isso é excesso de confiança? No primeiro dia que nos vemos partilhar um prato? – Riu-se daquela forma que me deixava sem palavras…
 - Tens toda a razão. É melhor eu comer o crepe sozinha, até porque tu não deves querer engordar e aquele crepe é uma bomba calórica, mas não resisto…
 - Achas mesmo? Eu não engordo porque sou terrível. Tu já deves ter ouvido os meus gritos, já te deves ter apercebido que o meu feitio não é dos fáceis. Nunca reparaste?
 - Reparei e de que maneira. Pareces um trovão. E depois quando fazes esse ar inofensivo, parece que estamos a falar de duas personalidades diferentes. Vou lá buscar o crepe, guarda aí a mesa…
Enquanto esperava na fila ele encostou-se na cadeira. Dei com ele a sorrir. E eu sorria também. Parecia que nos conhecíamos há muito mais tempo. Percebi nitidamente que aquele mau feitio era simplesmente uma forma de se fazer ouvir. De se impor perante as pessoas com quem trabalhava. Porque o pouco que conhecia dele, era de o ver por ali. Quase há 6 anos que nos cruzávamos e agora estávamos perto de ir partilhar um crepe. Eu sentia-me bem e era apenas nisso que me queria focar.
A noite foi muito agradável. Partilhámos o doce e ele gostou muito. Nunca tinha provado aquela delícia. Depois caminhámos um pouco pelo centro e ele levou-me ao carro. Pediu-me que ligasse quando chegasse a casa. Fez-me uma festa no rosto e eu fiquei sem jeito. Tinha o estômago cheio de borboletas. Estava a dois dias de ir com ele para Évora e nem sabia bem como me iria comportar. Tudo a seu tempo, pensei. Só pode correr bem.

sábado, 26 de março de 2011

Aquele Estranho... Parte II

O meu dia foi preenchido com diversas reuniões. Estávamos prestes a recrutar um estagiário para o departamento de Marketing e o meu Director fez questão que eu acompanhasse todo o processo. Ao mesmo tempo as palavras escritas pelo Alexandre não me saíam da cabeça. Só pensava em falar com ele e dizer-lhe tudo aquilo que tinha vontade. Mas ao mesmo tempo um frio no estômago instalou-se. Como se não pudesse ser verdade.
Ao final do dia quando saí peguei no telefone e liguei-lhe.

 - Estou sim, Alexandre?

 - Olá! Pensei que não ias ligar. Não esperava uma reacção diferente. No fundo pensei que ias fazer o mesmo que eu te tinha feito. Estás bem?

 - Sim, estou bem. Foi um dia bem cansativo, mas correu bem. Podemos conversar um pouco?

 - Podemos sim. Mas eu ainda estou com um cliente. Posso ligar-te mais tarde?

 - Sim, tudo bem. Quando puderes. Fica bem então.

 - Olha, obrigado por teres uma atitude diferente. Um beijinho.

Desliguei à pressa porque tinha os joelhos a tremer. Não acreditava que uma reviravolta tão grande pudesse ocorrer. Simplesmente não concebia essa ideia. Eu que concebia tudo e mais alguma coisa, não conseguia acreditar.

Cheguei a casa, fui ao congelador e tirei uns bifes para o jantar. Quando me preparava para ir correr um pouco, o meu telefone tocou. Era ele. O meu estômago deu um nó. Respirei fundo e atendi.
 - Sim…
 - Espero que agora possamos falar. – Disse ele com vontade de ouvir o que eu tinha para dizer.
 - Sim, posso falar agora contigo. Primeiro quero dizer-te que não esperava que me escrevesses, mas isso tu sabes. Em segundo lugar não consigo entender porque me ignoraste durante todo o tempo em que arrisquei e te procurei. Não tens ideia do mal que isso me fez sentir. E por último não sei se posso aceitar o teu convite para o evento em Évora.
(Silêncio…)
 - Bem, Disseste tudo? Parece que disseste isso tudo sem respirar. Percebo que tenhas ficado melindrada comigo, mas o meu silêncio foi unicamente para te proteger. A minha vida já estava uma tremenda confusão e eu não queria, de forma alguma colocar-te no meio de tudo o que me estava a acontecer, percebes?
 - Eu percebo, mas não entendo. Pensei que mo podias ter explicado naquela altura. Interpretei o teu silêncio como desprezo. E isso não é bom. Não era algo que eu merecesse. Consegues também colocar-te na minha posição?
 - Claro que sim. Peço desculpa mais uma vez. Mas não podia. Acredita que não podia, o que não quer dizer que eu não quisesse. Existem diferenças entre o querer e o poder (e ouvi-o rir) …
 - Tudo bem, essa parte já percebi. O que não quer dizer que aceite ou que te desculpe, mas tudo bem. Já agora quero fazer-te uma pergunta. A quem é que andaste a perguntar coisas sobre mim?
 - Pois. Isso foi o pior. Fiquei a perceber que não te abres com muita gente. E atenção que não digo isto como uma critica. Acho que fazes muito bem e principalmente no local de trabalho. Quem me ajudou foi o teu irmão, sabias?
 - Como? (engoli em seco, a última pessoa que eu pensasse que estaria metido nisto – pensei alto)
 - Sim, foi ele. Disseram-me como podia ter acesso ao teu facebook e eu contactei com ele. Foi a melhor ideia que tive, desculpa outra vez. - E uma gargalhada escapou-lhe…
 - Tu ainda te ris? Tem muita piada, realmente muita piada. Faço ideia o que ele pensou e o que te disse a meu respeito…
 - Por acaso foi impecável. Obviamente que eu tive de lhe explicar tudo muito bem. Não foi fácil e tive de lhe prometer muita coisa, mas valeu a pena. Aliás, valeu nem que seja pelo facto de estarmos agora aqui a falar. Mas eu só quero saber uma coisa, queres ir comigo a Évora? Tenho muito gosto que me acompanhes. Muito gosto mesmo.
 - Mas porquê eu? E que evento é esse?
 - Tu, simplesmente porque sim. Não há mais motivo. Quero que vás comigo. É a inauguração da remodelação de um Hotel que a minha empresa andou a fazer. O dono fez questão de me oferecer um fim semana para lá ficar. E acho que podes ser minha companhia. Aliás, por achar que deves ser uma companhia fantástica é que te quero levar.
 - Vou pensar. Até quando tenho de te dar a resposta?
 - Agora. Tens de me dizer agora. E eu não aceito um não. Anda lá Catarina, já viste bem o tempo que estivemos sem falar? É a forma de colocarmos a conversa em dia. De te vingares de mim – atenção que estou a brincar – disse em tom de riso…
 - Tudo bem eu vou. Mas antes disso preciso de te ver. Queres ir tomar um café daqui a pouco?
 - Não acredito. Estás a repetir um convite? Sabes que eu sempre achei que tu eras uma pessoa implacável. De um orgulho obsceno. Que dificilmente vacilavas, mas começo a ver que não és muito assim.
 - Bem, estou a ver que não te posso dar muita confiança. Afinal não quero ir tomar café nenhum. – Disse eu a rir sozinha…
 - Ah Ah Ah. Agora não podes voltar atrás. Lamento. Encontramo-nos onde? Eu apanho-te em casa, só tens de me dizer onde é.
 - Nem pensar. Não quero que saibas onde vivo. No Fórum Almada. Está bom para ti? Pelas 21h20 devo lá estar. Encontramo-nos lá em cima ao pé da casa dos crepes.
 - Com certeza. Nem arrisco a dizer mais nada. Até logo. Beijo…
 - Até logo. E não te atrases.
...

domingo, 13 de março de 2011

Aquele Estranho... Parte I

Chego a casa depois de mais um dia estafante de trabalho. Só me quero descalçar, meter debaixo do chuveiro e esperar que a água me lave a alma e atenue o cansaço. Os meus pés latejam por estarem fechados há horas demais dentro das botas. O frio já se sente. As primeiras chuvas caíram.  Não tarda, chega o Inverno.
Trouxe o correio misturado com a publicidade e despejei tudo na mesa da entrada. É sempre assim nestes dias em que não consigo articular nem mais um pensamento. Depois de orientar tudo, aí sim, sento-me no sofá da sala e vejo o que há. Facturas e mais facturas para pagar, publicidades de hipermercados é em triplicado, mas hoje não era só.  Havia mais uma carta. Não tem remetente, mas a minha morada vem escrita à mão. Estranho – pensei. As pessoas que me escrevem como antigamente identificam-se todas. De quem será?
Abri-a a medo com o abre cartas para não estragar e reparei que não era só uma carta, havia um cartão também.

Lisboa, 20 de Outubro de 2010

Antes de tudo começo esta carta com um pedido de desculpas. Pelos silêncios. Devia ter ganho coragem para te ligar mais cedo, mas vou ser honesto, não consegui ligar para ti. Por medo, só por isso. Posso também dizer que foi por timidez. Olhava para ti, cumprimentava-te, mas não consegui mais do que isso. Algo me dizia que não era ainda a altura mais correcta. Peço desculpa outra vez.
Espero que estas palavras não cheguem tarde demais. Nem sei se sabes quem te está a escrever, mas daqui a umas letras já vais ficar a saber quem eu sou.
Parei de ler a carta e fiquei a pensar. Isto não é normal. Recebo uma carta de um homem, escrita à mão, com uma letra que não é muito imperceptível, depois de um dia como o de hoje? Isto é um milagre vindo sei lá de onde, mas antes de me precipitar com pensamentos, vou mas é acabar de ler…

Nunca escrevi uma carta a mulher nenhuma. Nem mesmo à minha ex-mulher. Nunca fui muito disso e na altura não foi preciso, os telemóveis já eram normais nas nossas vidas. Mas nas informações que pedi sobre ti,  disseram-me que eras muito dada às palavras por esta forma, resolvi arriscar. Que tal me estou a sair?
Espero que a forma que arranjei de me aproximar de ti não te faça amachucar este papel (que eu perfumei – é verdade) para que soubesses que a minha intenção é a melhor. Prometo compensar-te da melhor forma que sei por estes meses em que a minha vida mudou e eu sei que tu sabes isso. Gostava de aproveitar (e foi esse o motivo da minha carta) para te convidar para me acompanhares num jantar que vou ter em Évora. Era muito importante para mim ter a tua companhia.
Junto envio o convite. Aguardo confirmação. Podes telefonar-me, não é preciso responderes-me por carta, porque fiz de propósito em ocultar o nome do remetente.
Despeço-me com um beijo. Espero receber noticias tuas em breve.

Alexandre.

Fiquei verde. Agora é que o verniz estalou todo. Isto não pode ser normal. A frase: “perguntei umas informações sobre ti” ecoavam-se repetidamente na minha cabeça. Não conseguia aceitar, entender ou o que quer que seja. Isto não podia estar a acontecer comigo, ou melhor, estava mesmo a acontecer. E era tão bom que eu nem sabia se havia de rir ou de chorar. Só me lembrei de uma pessoa que me ajudou ao longo do processo do Alexandre, o Artur.
 - Estou, Artur?!
 - Sim Catarina, diz…
 - Não vais acreditar no que te vou contar. Recebi uma carta sem remetente, mas o conteúdo é chocante. Consegues adivinhar de quem é?...
 - Uma carta? Não faço a menor ideia. Mas o conteúdo é bom ou mau?
 - Não é bom nem é mau. É simplesmente inacreditável de maravilhoso. – Sorri
 - Epá, diz-me lá. Já estou a ficar curioso. Quem é que te pode ter escrito uma carta com um conteúdo maravilhoso? Conta-me. Conta-me.
 - Olha ainda nem estou em mim. Já li a carta umas três vezes para ver se consigo encontrar alguma frase nova que se encaixe na minha cabeça e me faça entender. O Alexandre escreveu-me a pedir desculpa pelos silêncios e a convidar-me para um evento em Évora. Isto não faz sentido. Uma pessoa que ignorou todas as minhas mensagens, sorrisos, Bons dias, desejos de bom fim-de-semana, aparece assim, vindo de parte nenhuma dizer que não era a altura certa e que agora está aqui e quer que o acompanhe num evento. Isto não me soa bem…
 - Claro que soa. Tu é que tens sempre essa mania de querer explicar tudo, entender cada detalhe. Não tem nada a ver. Os homens não são lógicos nem seguem articulações ridiculamente estudadas como vocês, que encadeiam os planos milimetricamente alinhados, só posso fazer isto depois de ele superar o desafio A e B. Nós não somos assim. Nós agimos quando sentimos que é aquilo e nada mais, tão simples como isto. Sem grandes testamentos justificativos…
 - Espectáculo Artur. Agora é que me ajudaste mesmo… - gargalhei…
 - É verdade. Digo-te já sem rodeios, se ele teve a audácia de fazer perguntas sobre ti (não sei a quem…) é porque está interessado e já reparaste que ele fez uma boa surpresa? Isso significa simplesmente que és importante e ponto final. Ele quis chegar-te ao coração de um modo desinteressado. Porque já conhece uma parte de ti. E quis que acreditasses pelo seu gesto que é honesto…
 - Quem não tem coragem de lhe ligar agora sou eu. Mais uma vez deixou a “batata quente” na minha mão. Só me apetece calar-me para todo o sempre e agir da mesma forma que ele.
 - Pois, se calhar merece sofrer um pouco, porque a par de toda a sua timidez não custava nada ter respondido uma única vez, nem que fosse para retribuir um desejo de bom dia. Parece básico para nós, mas não estamos dentro da pessoa para saber o que sentiu efectivamente. No entanto para ele dar este passo é porque és importante. É porque ele se importa de alguma maneira, e nem sequer sabemos como ele andou durante todos estes meses, o que sentia (mesmo não dizendo nada). Sabes que quem mais cala por vezes é quem mais sofre…
- É verdade Artur. Não faço ideia do que aconteceu na vida dele durante todo este tempo e por isso não o posso julgar sem mais nem menos. Acho que vou ligar para tentar conversar um pouco e depois logo vejo o que faço. Obrigado pelas tuas palavras. Depois dou notícias. Beijo, até amanhã.

Tentei ao máximo continuar a minha vida naquele dia, como se nada de anormal se tivesse passado. Peguei no dossier e comecei a estudar Recrutamento & Selecção. O dia do exame estava a aproximar-se a passos largos e eu tinha de me dedicar. Mas a carta estava a sorrir-me. Peguei nela vezes sem conta. Cheirei-a e sentia aquele aroma que lhe era tão característico. Mas não queria telefonar-lhe. Pelo menos não naquela noite.
Continuei de volta dos estudos até que o cansaço me venceu. Adormeci no sofá. Quando acordei já a noite ia longa. Eram 3 da manhã quando agarrei em mim e fui para a cama. De manhã a resposta que eu procurava iria chegar.

Na manhã seguinte a chegar ao trabalho dou de caras com o Alexandre. Cumprimentei-o como era costume e senti do outro lado uma pequena ansiedade. Como se esperasse mais do que o normal “Bom Dia” de circunstância que estávamos habituados a trocar. Pestanejei, ele não desviou o olhar e seguiu-me com a cabeça. Percebi isso quando ao fechar a porta fiquei de frente para ele. Não senti que era o momento de lhe dizer o que quer que fosse. E tinha a certeza de que o momento iria chegar. E eu ia sentir quando fosse hora de agir.
Subo ao primeiro andar e oiço o meu telemóvel apitar o toque das mensagens.

“Pela tua forma de me olhares acho que não me desculpaste!” Engoli em seco. Pousei o telefone e ignorei. Ou pelo menos tentei que aquelas palavras não afectassem o funcionamento do meu dia. Tentei que os pensamentos não me desconcentrassem, tinha muito que fazer. Prazos imprescindíveis a cumprir. Quem sabe durante o dia não se fazia uma luz e eu ganharia coragem para resolver aquele assunto. O que é certo é que aquela voz mexia comigo, revoltava o meu mundo como eu costumava dizer. Mas eu não queria de forma nenhuma deixar-me levar sem ponderar bem. Afinal de contas eu já lhe tinha dado a oportunidade e ele não a quis agarrar.
...